Os novos <i>Hackers</i>?

Francisco Silva
A Internet ou - de certo modo mais alargadamente falando - o ciberespaço, que, sabe-se, tem como infra-estrutura e/ou ferramenta principal a Internet, mas que pode ser melhor apreendido - o ciberespaço, é claro - pelo conceito de um espaço gerado pelas «comunicações mediadas por computador», na actualidade realizadas através do «universal» IP (Internet Protocol), e no futuro baseadas seja no que vier a ser, não sei, ninguém sabe no que será, o certo é que nada é eterno, ou que exista para sempre, portanto, dizia, o ciberespaço, um conceito tão falado «inicialmente», lá para os idos tempos de meados dos anos 90 do século passado, nesses tempos que se julgava ser uma imensidade os 50 milhões de utilizadores da Internet, na sua maioria residentes nos EUA, nesses tempos em que a «cibercomunidade» era constituída sobretudo por investigadores, académicos/professores, estudantes universitários, techies (entusiastas dispondo de dinheiro quanto baste que sempre aparecem nos arranques das tecnologias - e ainda não saíram da lembrança os pioneiros dos receptores rádio à base da «galena»), mais os visionários «alucinados», os libertários, os hackers, e outros quejandos, quase todos viventes do «Ocidente» - o «Ocidente» do G8, alargado à ex-falada Tríada, da OCDE, mais as elites do resto do mundo -, o ciberespaço entretanto como que desaparecido das ribaltas mediáticas, descredibilizado como uma utopia de marginais, volta agora, mais discretamente mas volta - parafraseando a Poetisa - a ser visível, audível e legível [e, por isso], não podemos ignorá [-lo].
É que, como tudo o que passa das margens das sociedades para uma utilização das massas, e massas mais ou menos de todo o mundo, passa, mais cedo do que tarde, a receber uma devida atenção por parte das autoridades estatais. E neste caso assim também está a ser. Aliás, bastaria o saber-se da criação de um «Cibercomando» pela Força Aérea dos EUA com milhares de milhões de dólares orçamentados (1), para ter que chamar a nossa atenção a recuperação em curso da credibilidade do prefixo ciber- e, por arrastamento, do conceito de ciberespaço. Mais a mais, sabendo-se que a DARPA (2), chamada a desempenhar agora um importante papel de I&D na resposta aos requisitos do «Cibercomando», fora criada como ARPA, na sequência do lançamento do Sputnik em 1957, como resposta dos EUA para recuperarem na área da Ciência & Tecnologia em face da União Soviética, resposta que, entre outras coisas, esteve na origem da criação da Arpanet - a rede da ARPA -, considerada como a precursora da Internet.
De facto, parece justificar-se: em fins de 2007, eram já uns 1300 milhões os utilizadores da Internet; e o centro de gravidade da «cibercomunidade» também já não estava localizado no Ocidente, mas sim no Oriente - 510 milhões de utilizadores no Extremo Oriente (excepto a Rússia) que constituía o maior dos contingentes continentais, com a talhada principal a ser já a da China; uma quantidade de utilizadores que, portanto, mais que decuplicava o total global de utilizadores da Internet de há uma década. Pelo seu lado, a «Europa», do Atlântico a Vladivostok, somava também no final de 2007 quase 350 milhões de utilizadores, número já bastante superior aos 238 milhões totalizados pelo total do Canadá mais os EUA!
E é devido à já não mascarável, no Ocidente, importância assumida pela Internet na China que, por exemplo, em ano de JOs de Pequim, seria de esperar que um dos flancos principais através do qual a China fosse mediaticamente «atacada», em termos de Direitos Humanos, fosse alguma «desabertura» sua «revelada» em termos de acesso aos sites de propaganda «organizadora» contra o seu regime. É certo.
Mas a nova guerra ciberespacial poderá ir muito para além da «inofensiva» questão comunicacional! Será a possibilidade de, em permanência, não só localizar para apontar por tudo o que é mundo - por exemplo, nas Metrópoles do «Sul» -, tudo o que é alvejável. Será agora a ambição de entrar em tudo o que é computador, processador, para observar, desorientar, destruir, sendo o caso. Daí, a perspectiva de profissão para os novos hackers, agora numa escala maciça, e não mais apenas a meia dúzia que se entretinha a penetrar em computadores altamente seguros há uma década atrás…
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(1) Ver texto de Tom Burghardt in http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=9619
(2) DARPA - Defence Advanced Research Projects Agency (de ARPA passou a DARPA, voltou mais uma vez a ARPA e já há anos que é DARPA outra vez!).


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